terça-feira, julho 08, 2008

Há 50 anos, a URSS iniciava a corrida espacial com o satélite Sputnik

02/10 - 15:27, atualizada às 19:18 02/10 - Redação com AFP

 

No dia 4 de outubro de 1957 a União Soviética (URSS) enviava ao espaço o primeiro satélite artificial da história, o Sputnik, iniciando uma corrida com os Estados Unidos que se estenderia para o Sistema Solar como parte da disputa tecnológica da Guerra Fria.

O Sputnik, uma esfera metálica de 83 quilos dotada de quatro antenas e dois transmissores de rádio, decolou às 02h28 preso a um foguete R7, o antepassado do Soyuz, das estepes do Cazaquistão. Deste mesmo local partiria no dia 12 de abril de 1961 o primeiro homem a viajar para o espaço, o russo Yuri Gagarin.

"Preparamos o lançamento do Sputnik sem muitas esperanças. Naquela época, nosso objetivo primordial era a preparação de um míssil de guerra", lembra Boris Chertok, um dos criadores dos primeiros foguetes soviéticos R7 e colaborador de Serguei Korolev, pai do programa espacial soviético.

Após os três acidentes sofridos pelo míssil R7, logo transformado em foguete, Korolev propôs então outro projeto, um satélite artificial.

Já que a URSS tentava construir um aparelho que estudasse a atmosfera e o espaço, Korolev teve a idéia de fabricar um satélite simplificado, com "dois hemisférios, um transmissor de rádio, antenas e um sistema de alimentação", segundo conta Chertok.

Temendo que os americanos lançassem um satélite no dia 5 de outubro em ocasião de uma conferência internacional, Korolev decidiu acelerar os trabalhos.

No dia 4 de outubro o Sputnik foi colocado em órbita e começou a emitir seu famoso "bip bip". Uma façanha que na União Soviética de então simbolizava, mais do que a rivalidade com os Estados Unidos, o otimismo que sucedeu a morte do ditador Joseph Stalin em 1953.

Embora o lançamento tenha ocupado apenas algumas discretas linhas do jornal russo Pravda, a imprensa ocidental logo fez alarde com o potencial propagandístico e a "ameaça" militar representada pelo Sputnik.

Os Estados Unidos não tardaram a reagir, sobretudo ao ver que a URSS levava, um mês depois, para o espaço o primeiro ser vivo a bordo do Sputnik 2: a cachorrinha Laika.

Segundo uma das teorias, o Sputnik teria constituído um "racha intelectual", avaliou o ex-astronauta Harrison Schimidt, de 72 anos, um dos homens que caminhou sobre a lua.

Ainda que em público o presidente Dwight Eisenhower tenha minimizado o alcance do Sputnik, que qualificou com desdém de "pequena bola no ar", o presidente não agiu desta forma em uma reunião secreta menos de uma semana depois com os mais gabaritados cientistas. Na ocasião, Eisenhower lançou então o que se tornou a "corrida espacial".

Foram revisados os programas escolares para aumentar o peso dos estudos científicos nos EUA, criou-se um posto de assessor presidencial para as ciências, se lançou um enorme esforço orçamentário, catalizado pela Nasa, a agência espacial americana criada no final de julho de 1958: nada foi deixado ao azar.

Um mês depois de Yuri Gagari ter ido ao espaço, o sucessor de Eisenhower, John Fitzgerald Kennedy, reagiu pronunciando o que foi considerado o discurso fundador da corrida espacial para a lua.

A recompensa chegou em julho de 1969, quando o americano Neil Armstrong se tornou o primeiro homem a pisar na lua, acontecimento considerado um momento chave na história da Humanidade.

"Teríamos que apagar a humilhação de termos sido derrotados pelos russos e ir à lua para mostrar que nós éramos os garotos bons", ressaltou em Pasadena o engenheiro Burt Rutan, um dos pioneiros da conquista privada do espaço.

Agora que a Rússia celebra o 50º aniversário do lançamento do primeiro satélite artificial para o espaço, existe um certo clima de otimismo entre seus cientistas, segundo o especialista Igor Lysov.

No próximo ano, o orçamento estatal para projetos espaciais é de cerca de 1,5 bilhão de dólares (por volta de 1 bilhão de euros).

"É onze vezes menos que o financiamento da Nasa, mas dez vezes mais que o orçamento do programa espacial russo de uma década atrás", disse Lysov.

A Rússia praticamente deixou de financiar programas espaciais após o colapso da União Soviética em 1991, o que levou ao fim da estação MIR em 2001.

Desde então, o bem-sucedido envio de cosmonautas para a Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo do foguete Soyuz, incluindo alguns multimilionários turistas espaciais, melhorou muito a imagem dos cientistas russos.

Entretanto, Washington estuda deixar a ISS em 2015.

Por outro lado, os ganhos que a Rússia obtém graças aos altos preços do petróleo e do gás permitem visualizar um panorama mais promissor.

AFP

Laika, o 1º ser vivo a ser enviado ao espaço a bordo da Sputnik 2

Na pauta estão um projeto conjunto com a China para enviar uma sonda a Marte em 2009 e um projeto russo de uma missão humana à Lua em 2025.

Moscou também pretende desenvolver uma nova nave espacial e o produzir um sistema de navegação por satélite que rivalizaria com o dispositivo americano GPS.

No entanto, persiste uma certa incerteza quanto ao financiamento, segundo Leonid Gorshkov, diretor da projetista de aeronaves espaciais RKK.

"Embora os projetos comerciais nos ajudem a sobreviver, o desenvolvimento do programa espacial é impossível sem o apoio do Estado", disse Gorshkov.

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